terça-feira, junho 15, 2004

Divagações

A noite está escura, o último raio de sol já se foi à muito, um nevoeiro obscurecido, proveniente das trevas, emana pelas ruas desertas, iluminadas pelos candeeiros públicos, já alguns não funcionam, mas não é de estranhar, quando tanta coisa não funciona e não é concertada, a começar pela lei. Caminho rua a baixo, e poucos transeuntes vejo, ou se alguns passam por mim, não os vejo, vou alheado de tudo e todos, e o que vejo é um nevoiro cerrado, que me faz relembrar os tipicos nevoiros ingleses, de uma Londres industrial, depois mais abaixo na calçada vejo dois idosos conversando sobre tudo e nada, como se fosse a última coisa que pudessem fazer, sentem-se desprendidos deste mundo, querem partir, mas no entanto ainda não chegou a sua hora, no entretanto vão falando do passado, como se ainda vivessem nos anos 60 ou 70, pobres coitados, que não se apercebem das mudanças do mundo moderno, se calhar por isso ainda conseguem ser felizes. Seguindo meu longo caminho passo por duas crianças brincando freneticamente face aos gritos estridentes de uma senhora, mais pareciam grunhidos, que as engraçadas crianças, não pareciam ouvir, mas estavam felizes, naquilo que faziam, também vivem um mundo à parte, concerteza mais felizes que todos, resumindo-se os seus problemas ao dia estar-se a acabar e terem de ir para casa, ouvir da mãe por ainda não terem feito os trabalhos de casa, adiando esse momento até mais não puderem. Entretanto sua possível mãe amarelecida pelos anos de trabalho, cansou-se de gritar e recolheu à sua casa, de paredes escuras como breu, sentindo a sua insignificância face à alegria das crianças. Compreendi que ela não era capaz de entender a sua felicidade, provavelmente porque não entende o seu desprendimento e a sua alegria. E lá continuei meu trajecto, em busca de mais saber, apesar de saber que ele nunca existirá na totalidade, mas o desejo de saber consome-me, e a perfeição persegue-me, ou melhor persigua eu, apesar de saber que é uma perseguição condenada ao fracasso. A caminho de meu berço encontro dois rapazes lindos como a luz do sol, de mãos dadas, pareciam estarem amorosamente ligados, e pensei que já não existe receio de mostrar determinados tipos de paixão, serão odiados pela sociedade, mas noto que se sentem felizes, e isso basta para eles. Os cães ladram, os gatos miam, as calçadas vibram com os poucos carros que ainda circulam, provavelmente vindos de um qualquer espectáculo, até que entro nas minhas quatro paredes, o último refugio depois de mais um dia de aventura, pois porque cada dia é uma aventura e uma aprendizagem, poucos o verão assim, mas ele é na realidade assim, mas não o afirmo como sendo uma verdade absoluta, porque não acredito na verdade absoluta...sou um céptico. Pouco depois estou deitado, no meu leito solitário, apetece-me ler, mas não consigo, quero pensar na existência, e só vejo os velhos conversando e as crianças brincando, essas sim são felizes, cada uma à sua maneira, porque não pensam nestes problemas e são livres, desprendidas do mundo, são enfim, as fases mais belas da vida existencial, a infância e a velhice, quem me dera ter a sua juventude e o conhecimento dos velhos sábios, mas no entanto seria infeliz, porque já saberia tudo, e isso iria matar-me, quero procurar e encontrar, preseguir, o que ainda não foi encontrado, isso me fará feliz, realizado. Felizes aqueles que vêm como eu, até talvez esteja errado, mas deixem-me estar porque assim sou feliz. Vamos descobrir a nossa existência, quais as razões? quais os objectivos? qual o seu interesse?, perguntas dificeis, para mais para um ceptico, mas a beleza das coisas está exactamente em não saber, e nessa procura que se vai seguir.

PS: Isto poderia-se passar em qualquer lado, em qualquer momento, com qualquer pessoa, mas serve acima de tudo para pensar na relatividade da vida, e na existência de diversas verdades, ou melhor na não existência de verdade, pois como se poderia aceitar existirem várias, se à várias, não há nenhuma. Controverso talvez..., provocador talvez...